é uma grande
honra, para mim, dirigir a palavra a uma assembléia tão qualificada que,
por intermédio dos senhores, representa diversos povos e muitas cidades.
Portanto, agradeço de coração o convite e procurarei
estar à altura.
O título do discurso que devo pronunciar agora
é o seguinte: «O espírito de fraternidade na política como chave da
unidade da Europa e do mundo».
O espírito de fraternidade!
Quando me foi sugerido esse tema, há alguns meses, eu nunca teria
imaginado os terríveis fatos que ocorreriam antes que eu pudesse
apresentá-lo.
É incrível o quanto esses fatos confirmaram, na sua tragicidade,
que o mundo precisa da fraternidade e, de modo especial, da fraternidade
na política.
11 de setembro: as Torres Gêmeas de Nova
York desmoronavam. Foi destruído, assim, o símbolo da
nação mais potente do mundo, com um grande sacrifício
de vidas humanas. Terror geral e infinito não só nos Estados
Unidos!
Mas eis que, daquela massa de sofrimento, daquela noite repentina que
se fechou em pleno dia, observamos um fenômeno fora do comum:
uma competição de solidariedade jamais vista. Nova York
se transformou: os muros da indiferença se desfizeram numa avalanche
de ajudas concretas, de conforto, de disposição em fazer
algo para aliviar o sofrimento das pessoas.
Os Estados Unidos são um país multi-religioso, multi-étnico,
multi-cultural e estão apresentando ao mundo, numa sua cidade,
um exemplo de solidariedade, de unidade.
É como se os olhos de um povo se abrissem e vissem, em poucos
instantes, a necessidade absoluta de que se instaure por toda a parte
a fraternidade universal.
A fraternidade universal, prescindindo até do cristianismo, nunca
esteve totalmente ausente da mente de raras personalidades espirituais.
Mahatma Gandhi afirmava: «A regra de ouro é ser amigo do mundo
e considerar "uma só" toda a família humana. Quem distingue
os fiéis da sua religião daqueles de uma outra, deseduca
os membros da própria e fomenta a rejeição e a
irreligião» .
Ainda hoje, o conceito de fraternidade está presente em grandes
homens como o Dalai Lama que, em relação ao que aconteceu,
escreveu aos seus seguidores:
«Para nós, as razões (dos acontecimentos desses dias) são
claras. (...) Não nos lembramos das verdades humanas mais fundamentais.
(...) Somos uma coisa só. Esta é uma mensagem que a raça
humana ignorou completamente. O esquecimento dessa verdade é
a única causa do ódio e da guerra, e o modo para recordá-la
é simples: amar neste momento e sempre».
Mas quem trouxe a fraternidade, como dom essencial para humanidade,
foi Jesus, que assim rezou antes de morrer: «Pai, que todos sejam um»
(Cf Jo 17,21). Revelando aque Deus é Pai e que os homens, por
isso mesmo, são todos irmãos, Jesus introduziu a idéia
da humanidade como "uma família", a idéia da "família
humana", que é possível graças à fraternidade
universal vivida. E, com isso, abatem-se os muros que separam os iguais
dos diferentes, os amigos dos inimigos, que isolam uma cidade da outra.
A fraternidade liberta cada homem das amarras que o prendem, das mil
formas de subordinação e de escravidão, de qualquer
relacionamento injusto, realizando, assim, uma autêntica revolução
existencial, cultural e política.
Desse modo, a idéia da fraternidade começou a penetrar
na história. E seria possível percorrer a evolução
do pensamento das diversas épocas, a fim de identificar a sua
presença como patamar de muitas e fundamentais concepções
políticas; presença por vezes evidente, por vezes oculta.
Essa fraternidade, ainda que de modo limitado, muitas vezes foi vivida,
quando, por exemplo, um povo se uniu para conquistar a própria
liberdade, ou quando grupos sociais lutaram para defender um elemento
fraco, ou no momento em que pessoas de convicções diferentes
superaram a desconfiança para afirmar um direito humano.
A centralidade, para a política, da descoberta
da fraternidade é demonstrada também por um importante evento histórico,
que constitui um divisor de águas entre duas épocas: a Revolução Francesa.
No seu lema: «Liberdade, igualdade, fraternidade», ela sintetiza o grande
projeto político da modernidade, embora o seu modo de interpretar os
três princípios seja muito redutivo.
Além disso, ainda que numerosos países, instaurando um regime democrático,
conseguiram, de certo modo, realizar a liberdade e a igualdade, a fraternidade
permaneceu mais na teoria do que na prática.
Mas a Revolução Francesa, apesar de suas contradições, intuiu aquilo
que experiências sucessivas demonstraram: os três princípios subsistem
ou são violados juntos. Só o irmão pode reconhecer a plena liberdade
e igualdade que é inerente a seu irmão. Portanto, não se pode considerar
a fraternidade como um aspecto ingênuo, supérfluo ou acessório da política.
Os alicerçes da Europa
Para realizar o grande projeto da unidade
européia, a vivência da fraternidade é necessária, embora seja difícil.
Porém, devemos recordar que esse projeto não nasceu hoje.
Ele partiu de um tempo mais distante. Por exemplo, vejamos o que fizeram
alguns santos, escolhidos como padroeiros da Europa. São padroeiros,
porque foram seus fundadores, e nos momentos cruciais da história
souberam intervir, fincando os seus pilares e traçando a fisionomia
daquela que hoje definimos "Europa".
Entre o V e o VI século, num dos períodos mais críticos
para o continente, São Bento de Norcia propôs aos seus
contemporâneos um novo modelo de homem que, se por um lado estava
completamente unido a Deus, por outro, fabricava os seus instrumentos
de trabalho e lavrava a terra. A fraternidade monástica, a partir
de São Bento, criou uma rede de núcleos espirituais, econômicos
e culturais ao redor dos quais renasceu a Europa. Foi, ao mesmo tempo,
um renascimento espiritual e social.
A esse movimento se acrescenta, ampliando-o para o Leste, a ação
dos irmãos Cirilo e Metódio, que, no século IX,
imprimiram um timbre indelével nos povos eslavos, idealizando
uma escritura que exprimia a língua deles. Assim, inseriram esses
povos de modo mais profundo na comunhão eclesial, e, ao mesmo
tempo, salvaram a sua identidade cultural. Eles aplicaram concretamente
o modelo cristão de unidade na distinção que caracteriza
a Europa e que continua a ser um ponto de referência no caminho
a ser percorrido.
Num momento em que a Europa - tendo superado a precedente organização
feudal, mas ainda sem uma nova estabilidade - parecia ter perdido o
sentido da própria unidade espiritual, Santa Brígida da
Suécia e Santa Catarina de Sena se dirigiram aos poderosos da
sua época, com uma autoridade de amor, recordando-lhes o seu
verdadeiro objetivo de servir à justiça.
E, ainda, com Edith Stein, que é praticamente nossa contemporânea,
a santidade foi vivida em meio ao profundo horror que afligia a Europa,
unificando, no seu sacrifício pessoal, uma dúplice fidelidade:
ao seu povo e à sua fé. Ela morreu como monja cristã,
mas morreu porque era judia. E implantou, assim, a pedra angular de
uma casa européia, para a qual todas as religiões podem contribuir
na construção da fraternidade.
A santidade permeia as raízes da Europa,
não apenas a que a história nos oferece, mas também
a da Europa que nós, hoje, estamos construindo, como nos testemunham
algumas das personalidades consideradas "pais" da Europa unida: Robert
Schuman e Alcide De Gasperi. Para testemunhar a santidade deles, foi
aberto o processo de beatificação, no qual se está
verificando como eles viveram de modo heróico, não só
as virtudes religiosas mas também aquelas civis que a profissão
política exige.
Se voltarmos à inspiração originária deles,
e ao modo como compreenderem a unidade européia, podemos entender
melhor em que objetivo nos concentrar.
O primeiro passo foi a criação da "Comunidade européia
do Carvão e do Aço" (CECA). Mas a fusão das produções
de carvão e de aço não foi motivada unicamente
pelo objetivo de realizar uma "operação econômica".
Ao invés, foi definida como uma "solidariedade de produção"
que inviabilizaria qualquer forma de guerra entre França, Alemanha
e os outros países que teriam aderido ao projeto. O objetivo
era a paz, proteger a fraternidade, e a economia era o meio. Como declarou
Konrad Adenauer, diante do Parlamento Alemão, em junho de 1950:
«A importância do projeto é sobretudo política e
não econômica».
Esse primeiro objetivo, referente a um setor industrial de interesse
primário, foi considerado apenas uma etapa para a efetiva unificação
econômica da Europa, também ela entendida, por sua vez
- como enfatizava Robert Schuman, reaproveitando as idéias de
Jean Monnet - como «o fermento de uma comunidade mais profunda entre
países há muito tempo em conflito por sangrentas divisões»
.
Além disso, nem sequer a Europa era o fim
último desse esforço de comunhão, e isso foi explicitamente declarado
no primeiro ato oficial de todo o projeto, a "Declaração Schuman": «A
Europa, com maior riqueza de meios, poderá fomentar a realização de
uma das suas funções essenciais: o desenvolvimento do continente africano»
.
Na visão dos fundadores, a Europa é uma família
composta por povos irmãos, não fechada em si mesma, mas aberta a uma
missão universal: a Europa quer a própria unidade para contribuir, por
sua vez, à unidade da família humana. Portanto, Europa unida para realizar
um mundo unido. Um mundo unido?
Podemos pensar que é um sonho, sobretudo hoje em dia. Utopia.
Porém, não é verdade, se o Papa atual assim falou
aos nossos jovens, há poucos anos: «Realmente esta parece ser
a perspectiva que emerge dos multíplices sinais do nosso tempo:
a visão de um mundo unido. É a grande expectativa dos
homens de hoje (...) e, ao mesmo tempo, o grande desafio do futuro.
Percebemos que se está caminhando rumo à unidade sob o
impulso de uma excepcional aceleração» .
Uma aceleração provocada também por circunstâncias
que parecem ou são mesmo uma sua negação. Mas que
tudo pode cooperar para o bem, de quem acredita no mundo unido, não
é, paradoxalmente, a idéia de poucos neste momento.
E a Igreja o afirma há muito tempo, falando de uma nova ordem
mundial, de uma nova ordem econômica, de uma globalização
da solidariedade. Esses alarmes atuais levam-nos a compreender que esses
ideais não são apenas opções facultativas, mas
algo inerente com o caminho da humanidade.
Instrumentos de unidade
Mas como prosseguir o trabalho daqueles que, no decorrer dos séculos,
construíram a Europa?
Para suscitar a fraternidade na Europa, para lhe dar uma alma que gere
uma unidade espiritual, garantia da unidade política, econômica
etc., não faltam os instrumentos. Basta saber identificá-los.
Um deles, cuja eficácia ainda não foi totalmente descoberta,
é o surgimento, depois da década de vinte e sobretudo
em nações européias (Espanha, França, Alemanha,
Itália e não só na Igreja católica), de
dezenas de novos Movimentos e Comunidades eclesiais que, por terem sido
fundados e por serem prevalentemente compostos por leigos, possuem um
sincero e profundo interesse pela vida humana e exercem uma certa influência
no campo civil, promovendo concretas realizações políticas,
econômicas etc.
Essas expressões se destacaram há apenas três anos, quando
a Igreja se redescobriu e se apresentou ao mundo constituída
não só pelo seu aspecto institucional, como também
por aquele carismático, coessencial ao primeiro. O aspecto carismático
enriqueceu os séculos com movimentos espirituais (como aquele
franciscano) e com as mais variadas correntes de pensamento e de espiritualidades,
capazes de reconduzir o povo cristão, muitas vezes apático
e secularizado pelo contato com o mundo, à autenticidade e ao
radicalismo do Evangelho.
Autenticidade e radicalismo sobretudo pelo extraordinário amor
evangélico, matéria-prima da fraternidade, que deve ser
dirigido a todos, inclusive ao inimigo. É um amor que corajosamente
leva aquele que ama a tomar a iniciativa, que não é um
mero sentimentalismo, mas ação concreta, que trata todos
igualmente. Esse amor, vivido por mais pessoas, torna-se recíproco
e gera justamente a fraternidade, a unidade. Esses Movimentos, cada
um seguindo o próprio carisma, concretizam o amor de muitas formas.
Porém, muitos deles possuem, acima de tudo, a força do
Espírito, sempre atento às necessidades do momento, que
os capacita a dialogar profundamente com todos os homens e mulheres
do nosso planeta.
E hoje, existem quatro diálogos que são realmente necessários
para criar a fraternidade na Europa: o diálogo no interior de
cada Igreja cristã, já promovido pelos novos Movimentos
eclesiais; o diálogo ecumênico, que ajuda a restauração
da unidade na única Igreja; o diálogo com pessoas de outras religiões:
muçulmanos, judeus, budistas etc., que hoje vivem também
na Europa, em razão do fluxo migratório e dos intercâmbios
ligados à globalização. Esse terceiro diálogo
pode ser atuado em virtude da "Regra de ouro", que existe em todas as
principais religiões da Terra: «Assim como quereis que os homens vos
façam, do mesmo modo lhes fazeis vós também» (Lc
6,31)». Essa "Regra de ouro", no fundo, é um convite a amar.
E, se nós amamos, porque somos cristãos, e os demais também
amam, nasce entre nós o amor recíproco, do qual floresce
a fraternidade também com eles.
Enfim, como quarto, começamos um diálogo com os irmãos
- e são a maioria - que não possuem um referencial religioso,
mas possuem também eles, no DNA da própria alma, o impulso
a amar.
Hoje, o convite a construir a fraternidade partiu
de uma voz de grande prestígio: João Paulo II. Ele, no
dia 6 de janeiro deste ano, propôs a todos os cristãos,
na Carta Novo Millennio ineunte, a "espiritualidade de comunhão",
que a torna possível. Essa espiritualidade já está
presente na Igreja há cerca de 60 anos, num Movimento, aquele
dos Focolares; porém, ela, até então, se limitava
ao seu âmbito; agora, porém, tendo sido adotada pelo Papa,
pode e deve animar toda a Igreja, e ir mais além.
O seu segredo é fixar o olhar n'Aquele que foi o artífice
da fraternidade e da restauração da unidade de todos os
homens com Deus e entre eles, o Crucificado que grita: «Meu Deus, meu
Deus, por que me abandonaste?» (Mt 27,46).
Todos nós, homens, estávamos separados do Pai e divididos entre nós.
Era necessário que o Filho, no qual todos estamos representados, provasse
a separação do Pai, com o qual era uma coisa só (Jo 10,30).
Mas Jesus não se deixou paralisar pelo abismo daquela dor infinita.
Com um grandioso esforço, dizendo: «Em tuas mãos, Pai,
entrego o meu espírito» (Lc 23,46), voltou a abandonar-se ao
Pai, e recompôs, assim, a unidade com Deus e entre nós.
É o mistério de Jesus abandonado-ressuscitado, que nos
dá a possibilidade de, imitando-o, superar qualquer divisão
e estabelecer um diálogo com todos.
Perspectivas políticas
da fraternidade
Visto que os novos Movimentos, em geral, possuem o interesse pelo aspecto
humano, no Movimento dos Focolares, a "espiritualidade da unidade e
de comunhão" deu origem também a uma expressão política: o Movimento
da Unidade, cujo objetivo específico é gerar a fraternidade na política.
Ele nasceu em Nápoles, em 1996, e congrega a experiência daqueles políticos
italianos que, desde os anos 50, procuraram viver o ideal da unidade.
Hoje, podemos constatar que tudo aquilo que foi praticado nos diversos
níveis do compromisso político, da administração municipal à atividade
parlamentar, pode nos oferecer indicações concretas, que poderiam ser
desenvolvidas em dimensão continental.
Em primeiro lugar, compreendemos que existe uma verdadeira vocação
para a política. É um chamado pessoal que emerge de circunstâncias
específicas e exprime-se por meio da consciência. Quem
possui uma fé religiosa percebe, com nitidez, a voz de Deus que
lhe confia uma missão. Todavia, quem não possui uma fé
religiosa, sente-se chamado a isso pela existência de uma necessidade
social, de uma categoria fragilizada que solicita auxílio, de
um direito humano violado, do desejo de realizar o bem para a própria
cidade ou para a própria nação.
E a resposta à vocação política é, sobretudo, um ato de fraternidade.
De fato, não se entra nesse campo só para resolver um problema, mas
se age em prol do interesse da comunidade, desejando o seu bem como
se fosse o próprio.
Esse modo de viver permite que o político escute profundamente os cidadãos,
que conheça as suas necessidades e recursos. Isso o ajuda a compreender
a história da própria cidade, a valorizar o patrimônio cultural e comunitário.
Desse modo, ele consegue entender, pouco a pouco, a verdadeira vocação
da cidade e a olhar para ela com segurança, a fim de traçar o seu caminho.
A função do amor político, de fato, é criar
e proteger as condições que dêem a todos os outros amores
a possibilidade de florescer: o amor dos jovens, que desejam se casar
e precisam de uma casa e de um trabalho; o amor de quem quer estudar
e precisa das escolas e dos livros; o amor de quem se dedica à
própria empresa e precisa de estradas e ferrovias, de normas
seguras... A política é o amor dos amores, que recolhe,
na unidade de um projeto comum, a riqueza das pessoas e dos grupos,
consentindo a cada um realizar livremente a própria vocação.
Mas também suscita colaboração, fazendo as necessidades
interagirem com os recursos, as demandas com as ofertas, infundindo
a confiança uns nos outros. A política pode ser comparada
ao caule de uma flor, que sustenta e alimenta o desabrochar das pétalas
da comunidade.
Nós sabemos que, ainda hoje, existem cidadãos
para quem a cidade é algo quase inexistente; para quem as instituições
buscam, com dificuldade, encontrar respostas para os problemas deles.
Existe também quem se sente excluído do tecido social
e separado do corpo político por causa da falta de trabalho ou
de moradia, ou da possibilidade de cuidar da saúde com meios adequados.
São esses, e muitos outros, os problemas que cotidianamente os
cidadãos apresentam a quem governa uma cidade. E a resposta que
recebem é determinante para que também eles se sintam
cidadãos com todos os seus direitos, sintam a exigência
e tenham a possibilidade de participar da vida social e política.
Por isso, desse ponto de vista, a Câmara Municipal é a
mais importante das instituições, porque está mais perto
das pessoas e conhece diretamente todos os tipos de necessidades. É
em contato com a Prefeitura, nas suas várias articulações,
que o cidadão desenvolve a gratidão - ou o rancor - pelo
conjunto das instituições, também por aquelas mais distantes,
como as do Estado.
Passando agora a considerar a dimensão
nacional da política, os relacionamentos entre as grandes tendências,
que, nos nossos países, alternam-se no governo, constatamos que
a vivência da nossa escolha política, como uma vocação
de amor, leva-nos a compreender que também aqueles que fizeram
uma escolha política diferente da nossa, podem ter sido movidos
por uma análoga vocação de amor. Também
eles participam - do modo deles- do mesmo projeto, ainda que se apresentem
como adversários. A fraternidade permite o reconhecimento da
função deles, o respeito por eles, a ajuda a serem fiéis,
inclusive por meio de uma crítica construtiva, enquanto nós
somos fiéis à nossa função.
A fraternidade deveria ser tão bem vivida a ponto de nos levar a amar
o partido dos outros como o nosso, sabendo que ambos não nasceram por
acaso, mas como uma resposta a uma exigência histórica, presente no
interior da comunidade nacional. Só satisfazendo todos os interesses,
só harmonizando-os num projeto comum, é que a política atingirá o próprio
objetivo.
A fraternidade desperta os valores autênticos de cada um e reconstrói
o conjunto do projeto político de uma nação.
Isso pode ser testemunhado, por exemplo, pelas iniciativas dos membros
do Movimento da Unidade, voltadas para a criação de uma relação fraterna
entre a maioria e a oposição do governo, em nível parlamentar ou em
alguns municípios. Essas iniciativas foram traduzidas em leis estaduais
ou em políticas locais, que uniram as cidades nas quais foram realizadas.
Uma prova disso são as numerosas experiências de acolhida aos imigrantes.
Eles migram para países mais industrializados não apenas por motivos
econômicos, mas também políticos. Uma cidade, uma nação, não perde,
mas se enriquece ao abrir-se ao outro; eleva a sua estatura política
ao oferecer uma pátria e uma cidadania a quem a perdeu. E o amor pela
própria pátria facilita a compreensão do amor que os outros possuem
pela pátria deles, para a qual também existe um projeto de amor.
Assim, aquele que, respondendo à própria
vocação política, começa a viver a fraternidade,
coloca-se numa dimensão universal, que o abre para a humanidade
inteira. Ele pondera as conseqüências universais das próprias
escolhas; questiona se aquilo que está sendo decidido, embora
satisfaça o interesse da própria nação,
não vai prejudicar as outras. Desse modo, cada ação
política, não só a de um governo nacional, mas
também a menor ação, realizada naquele pequeno
município da mais longínqua localidade, adquire um significado
universal, pois é plenamente humano e plenamente responsável
o político que a realiza. O político da unidade ama a
pátria alheia como a própria. Essa é a característica
da dimensão política, da cidadania: a contínua
interação com o outro, o reconhecimento das diferenças,
mas, ao mesmo tempo, a convicção de pertencermos juntos,
à cidade. E é essa também a característica
da Europa.
De fato, quando se começou a falar de Europa, só havia
cidades. Ao longo dos séculos, a percepção do que
é a Europa foi sendo aprofundada e, ao mesmo tempo, as suas fronteiras
foram se ampliando: da pequena Grécia, a consciência européia
chegou a compreender a si mesma, como sendo do Atlântico aos Urais.
E isso graças à penetração do cristianismo,
que infundiu, nos povos da Europa "geográfica", os princípios
religiosos que, traduzidos em princípios civis, sociais e políticos,
construíram a Europa cultural. Tudo isso sem sufocar as identidades
locais e as identidades nacionais, que foram se formando.
Em cada passagem da história, reencontramos a mesma situação: aquilo
que, a certa altura, acreditava-se ser a Europa, era pequeno demais;
ela se deparava com um elemento diferente, que a colocava em xeque-mate
e a desafiava a compreendê-lo, a englobá-lo, modificando-o e modificando
a si mesma.
Fazendo isso, a Europa foi concretizando cada vez mais a sua verdadeira
fisionomia, rumo à plena maturação da semente cristã
que não se exprime mais, certamente, na cristandade medieval,
mas, com maior profundidade, se exprime na dinâmica da fraternidade
universal que envolve pessoas e povos diferentes.
Essa fraternidade universal, que cria a unidade, salvando a distinção,
é a vocação da Europa, que ainda está em
caminho. As guerras, os regimes totalitários, as injustiças,
deixaram feridas a serem cicatrizadas. Mas, para sermos realmente europeus,
devemos olhar com misericórdia para o passado, reconhecendo,
como nossa, a história da minha nação e a história
das outras nações, reconhecendo que, o que somos hoje, é
fruto de uma história comum, de um destino europeu que pede para
ser assumido de modo integral e consciente por todos nós.
A unidade da Europa pede hoje aos políticos europeus que interpretem
os sinais dos tempos e façam entre si um pacto de fraternidade, com
o compromisso de se considerarem membros da pátria européia, tanto quanto
o são da própria nação, procurando sempre o que une e encontrando, juntos,
as soluções para os problemas que ainda impedem a unidade de toda a
Europa.
Por um fim tão elevado, vale a pena empregar a própria existência.
É o que desejo a todos os senhores.
Agradeço pela atenção dispensada.
Chiara Lubich
12-11-2001