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Discurso de Chiara Lubich

O espírito de fraternidade na política
como chave da unidade da Europa e do mundo


Innsbruck, 9 de novembro de 2001



Senhor prefeito de Innsbruck, dr. Van Staa,
Senhor presidente da Comissão Européia,
Prof. Romano Prodi,
Senhor presidente da República, dr. Klestil,
Senhores prefeitos e administradores,
Senhores parlamentares,
Senhoras e senhores,
é uma grande honra, para mim, dirigir a palavra a uma assembléia tão qualificada que, por intermédio dos senhores, representa diversos povos e muitas cidades.
Portanto, agradeço de coração o convite e procurarei estar à altura.

O título do discurso que devo pronunciar agora é o seguinte: «O espírito de fraternidade na política como chave da unidade da Europa e do mundo».

O espírito de fraternidade!
Quando me foi sugerido esse tema, há alguns meses, eu nunca teria imaginado os terríveis fatos que ocorreriam antes que eu pudesse apresentá-lo.
É incrível o quanto esses fatos confirmaram, na sua tragicidade, que o mundo precisa da fraternidade e, de modo especial, da fraternidade na política.

11 de setembro: as Torres Gêmeas de Nova York desmoronavam. Foi destruído, assim, o símbolo da nação mais potente do mundo, com um grande sacrifício de vidas humanas. Terror geral e infinito não só nos Estados Unidos!
Mas eis que, daquela massa de sofrimento, daquela noite repentina que se fechou em pleno dia, observamos um fenômeno fora do comum: uma competição de solidariedade jamais vista. Nova York se transformou: os muros da indiferença se desfizeram numa avalanche de ajudas concretas, de conforto, de disposição em fazer algo para aliviar o sofrimento das pessoas.
Os Estados Unidos são um país multi-religioso, multi-étnico, multi-cultural e estão apresentando ao mundo, numa sua cidade, um exemplo de solidariedade, de unidade.
É como se os olhos de um povo se abrissem e vissem, em poucos instantes, a necessidade absoluta de que se instaure por toda a parte a fraternidade universal.

A fraternidade universal, prescindindo até do cristianismo, nunca esteve totalmente ausente da mente de raras personalidades espirituais. Mahatma Gandhi afirmava: «A regra de ouro é ser amigo do mundo e considerar "uma só" toda a família humana. Quem distingue os fiéis da sua religião daqueles de uma outra, deseduca os membros da própria e fomenta a rejeição e a irreligião» .
Ainda hoje, o conceito de fraternidade está presente em grandes homens como o Dalai Lama que, em relação ao que aconteceu, escreveu aos seus seguidores:
«Para nós, as razões (dos acontecimentos desses dias) são claras. (...) Não nos lembramos das verdades humanas mais fundamentais. (...) Somos uma coisa só. Esta é uma mensagem que a raça humana ignorou completamente. O esquecimento dessa verdade é a única causa do ódio e da guerra, e o modo para recordá-la é simples: amar neste momento e sempre».
Mas quem trouxe a fraternidade, como dom essencial para humanidade, foi Jesus, que assim rezou antes de morrer: «Pai, que todos sejam um» (Cf Jo 17,21). Revelando aque Deus é Pai e que os homens, por isso mesmo, são todos irmãos, Jesus introduziu a idéia da humanidade como "uma família", a idéia da "família humana", que é possível graças à fraternidade universal vivida. E, com isso, abatem-se os muros que separam os iguais dos diferentes, os amigos dos inimigos, que isolam uma cidade da outra. A fraternidade liberta cada homem das amarras que o prendem, das mil formas de subordinação e de escravidão, de qualquer relacionamento injusto, realizando, assim, uma autêntica revolução existencial, cultural e política.

Desse modo, a idéia da fraternidade começou a penetrar na história. E seria possível percorrer a evolução do pensamento das diversas épocas, a fim de identificar a sua presença como patamar de muitas e fundamentais concepções políticas; presença por vezes evidente, por vezes oculta. Essa fraternidade, ainda que de modo limitado, muitas vezes foi vivida, quando, por exemplo, um povo se uniu para conquistar a própria liberdade, ou quando grupos sociais lutaram para defender um elemento fraco, ou no momento em que pessoas de convicções diferentes superaram a desconfiança para afirmar um direito humano.

A centralidade, para a política, da descoberta da fraternidade é demonstrada também por um importante evento histórico, que constitui um divisor de águas entre duas épocas: a Revolução Francesa. No seu lema: «Liberdade, igualdade, fraternidade», ela sintetiza o grande projeto político da modernidade, embora o seu modo de interpretar os três princípios seja muito redutivo.
Além disso, ainda que numerosos países, instaurando um regime democrático, conseguiram, de certo modo, realizar a liberdade e a igualdade, a fraternidade permaneceu mais na teoria do que na prática.
Mas a Revolução Francesa, apesar de suas contradições, intuiu aquilo que experiências sucessivas demonstraram: os três princípios subsistem ou são violados juntos. Só o irmão pode reconhecer a plena liberdade e igualdade que é inerente a seu irmão. Portanto, não se pode considerar a fraternidade como um aspecto ingênuo, supérfluo ou acessório da política.

Os alicerçes da Europa
Para realizar o grande projeto da unidade européia, a vivência da fraternidade é necessária, embora seja difícil.
Porém, devemos recordar que esse projeto não nasceu hoje. Ele partiu de um tempo mais distante. Por exemplo, vejamos o que fizeram alguns santos, escolhidos como padroeiros da Europa. São padroeiros, porque foram seus fundadores, e nos momentos cruciais da história souberam intervir, fincando os seus pilares e traçando a fisionomia daquela que hoje definimos "Europa".
Entre o V e o VI século, num dos períodos mais críticos para o continente, São Bento de Norcia propôs aos seus contemporâneos um novo modelo de homem que, se por um lado estava completamente unido a Deus, por outro, fabricava os seus instrumentos de trabalho e lavrava a terra. A fraternidade monástica, a partir de São Bento, criou uma rede de núcleos espirituais, econômicos e culturais ao redor dos quais renasceu a Europa. Foi, ao mesmo tempo, um renascimento espiritual e social.
A esse movimento se acrescenta, ampliando-o para o Leste, a ação dos irmãos Cirilo e Metódio, que, no século IX, imprimiram um timbre indelével nos povos eslavos, idealizando uma escritura que exprimia a língua deles. Assim, inseriram esses povos de modo mais profundo na comunhão eclesial, e, ao mesmo tempo, salvaram a sua identidade cultural. Eles aplicaram concretamente o modelo cristão de unidade na distinção que caracteriza a Europa e que continua a ser um ponto de referência no caminho a ser percorrido.
Num momento em que a Europa - tendo superado a precedente organização feudal, mas ainda sem uma nova estabilidade - parecia ter perdido o sentido da própria unidade espiritual, Santa Brígida da Suécia e Santa Catarina de Sena se dirigiram aos poderosos da sua época, com uma autoridade de amor, recordando-lhes o seu verdadeiro objetivo de servir à justiça.
E, ainda, com Edith Stein, que é praticamente nossa contemporânea, a santidade foi vivida em meio ao profundo horror que afligia a Europa, unificando, no seu sacrifício pessoal, uma dúplice fidelidade: ao seu povo e à sua fé. Ela morreu como monja cristã, mas morreu porque era judia. E implantou, assim, a pedra angular de uma casa européia, para a qual todas as religiões podem contribuir na construção da fraternidade.

A santidade permeia as raízes da Europa, não apenas a que a história nos oferece, mas também a da Europa que nós, hoje, estamos construindo, como nos testemunham algumas das personalidades consideradas "pais" da Europa unida: Robert Schuman e Alcide De Gasperi. Para testemunhar a santidade deles, foi aberto o processo de beatificação, no qual se está verificando como eles viveram de modo heróico, não só as virtudes religiosas mas também aquelas civis que a profissão política exige.
Se voltarmos à inspiração originária deles, e ao modo como compreenderem a unidade européia, podemos entender melhor em que objetivo nos concentrar.
O primeiro passo foi a criação da "Comunidade européia do Carvão e do Aço" (CECA). Mas a fusão das produções de carvão e de aço não foi motivada unicamente pelo objetivo de realizar uma "operação econômica". Ao invés, foi definida como uma "solidariedade de produção" que inviabilizaria qualquer forma de guerra entre França, Alemanha e os outros países que teriam aderido ao projeto. O objetivo era a paz, proteger a fraternidade, e a economia era o meio. Como declarou Konrad Adenauer, diante do Parlamento Alemão, em junho de 1950: «A importância do projeto é sobretudo política e não econômica».
Esse primeiro objetivo, referente a um setor industrial de interesse primário, foi considerado apenas uma etapa para a efetiva unificação econômica da Europa, também ela entendida, por sua vez - como enfatizava Robert Schuman, reaproveitando as idéias de Jean Monnet - como «o fermento de uma comunidade mais profunda entre países há muito tempo em conflito por sangrentas divisões» .
Além disso, nem sequer a Europa era o fim último desse esforço de comunhão, e isso foi explicitamente declarado no primeiro ato oficial de todo o projeto, a "Declaração Schuman": «A Europa, com maior riqueza de meios, poderá fomentar a realização de uma das suas funções essenciais: o desenvolvimento do continente africano» .

Na visão dos fundadores, a Europa é uma família composta por povos irmãos, não fechada em si mesma, mas aberta a uma missão universal: a Europa quer a própria unidade para contribuir, por sua vez, à unidade da família humana. Portanto, Europa unida para realizar um mundo unido. Um mundo unido?
Podemos pensar que é um sonho, sobretudo hoje em dia. Utopia. Porém, não é verdade, se o Papa atual assim falou aos nossos jovens, há poucos anos: «Realmente esta parece ser a perspectiva que emerge dos multíplices sinais do nosso tempo: a visão de um mundo unido. É a grande expectativa dos homens de hoje (...) e, ao mesmo tempo, o grande desafio do futuro. Percebemos que se está caminhando rumo à unidade sob o impulso de uma excepcional aceleração» .
Uma aceleração provocada também por circunstâncias que parecem ou são mesmo uma sua negação. Mas que tudo pode cooperar para o bem, de quem acredita no mundo unido, não é, paradoxalmente, a idéia de poucos neste momento.
E a Igreja o afirma há muito tempo, falando de uma nova ordem mundial, de uma nova ordem econômica, de uma globalização da solidariedade. Esses alarmes atuais levam-nos a compreender que esses ideais não são apenas opções facultativas, mas algo inerente com o caminho da humanidade.

Instrumentos de unidade
Mas como prosseguir o trabalho daqueles que, no decorrer dos séculos, construíram a Europa?
Para suscitar a fraternidade na Europa, para lhe dar uma alma que gere uma unidade espiritual, garantia da unidade política, econômica etc., não faltam os instrumentos. Basta saber identificá-los.
Um deles, cuja eficácia ainda não foi totalmente descoberta, é o surgimento, depois da década de vinte e sobretudo em nações européias (Espanha, França, Alemanha, Itália e não só na Igreja católica), de dezenas de novos Movimentos e Comunidades eclesiais que, por terem sido fundados e por serem prevalentemente compostos por leigos, possuem um sincero e profundo interesse pela vida humana e exercem uma certa influência no campo civil, promovendo concretas realizações políticas, econômicas etc.
Essas expressões se destacaram há apenas três anos, quando a Igreja se redescobriu e se apresentou ao mundo constituída não só pelo seu aspecto institucional, como também por aquele carismático, coessencial ao primeiro. O aspecto carismático enriqueceu os séculos com movimentos espirituais (como aquele franciscano) e com as mais variadas correntes de pensamento e de espiritualidades, capazes de reconduzir o povo cristão, muitas vezes apático e secularizado pelo contato com o mundo, à autenticidade e ao radicalismo do Evangelho.
Autenticidade e radicalismo sobretudo pelo extraordinário amor evangélico, matéria-prima da fraternidade, que deve ser dirigido a todos, inclusive ao inimigo. É um amor que corajosamente leva aquele que ama a tomar a iniciativa, que não é um mero sentimentalismo, mas ação concreta, que trata todos igualmente. Esse amor, vivido por mais pessoas, torna-se recíproco e gera justamente a fraternidade, a unidade. Esses Movimentos, cada um seguindo o próprio carisma, concretizam o amor de muitas formas. Porém, muitos deles possuem, acima de tudo, a força do Espírito, sempre atento às necessidades do momento, que os capacita a dialogar profundamente com todos os homens e mulheres do nosso planeta.
E hoje, existem quatro diálogos que são realmente necessários para criar a fraternidade na Europa: o diálogo no interior de cada Igreja cristã, já promovido pelos novos Movimentos eclesiais; o diálogo ecumênico, que ajuda a restauração da unidade na única Igreja; o diálogo com pessoas de outras religiões: muçulmanos, judeus, budistas etc., que hoje vivem também na Europa, em razão do fluxo migratório e dos intercâmbios ligados à globalização. Esse terceiro diálogo pode ser atuado em virtude da "Regra de ouro", que existe em todas as principais religiões da Terra: «Assim como quereis que os homens vos façam, do mesmo modo lhes fazeis vós também» (Lc 6,31)». Essa "Regra de ouro", no fundo, é um convite a amar. E, se nós amamos, porque somos cristãos, e os demais também amam, nasce entre nós o amor recíproco, do qual floresce a fraternidade também com eles.
Enfim, como quarto, começamos um diálogo com os irmãos - e são a maioria - que não possuem um referencial religioso, mas possuem também eles, no DNA da própria alma, o impulso a amar.

Hoje, o convite a construir a fraternidade partiu de uma voz de grande prestígio: João Paulo II. Ele, no dia 6 de janeiro deste ano, propôs a todos os cristãos, na Carta Novo Millennio ineunte, a "espiritualidade de comunhão", que a torna possível. Essa espiritualidade já está presente na Igreja há cerca de 60 anos, num Movimento, aquele dos Focolares; porém, ela, até então, se limitava ao seu âmbito; agora, porém, tendo sido adotada pelo Papa, pode e deve animar toda a Igreja, e ir mais além.
O seu segredo é fixar o olhar n'Aquele que foi o artífice da fraternidade e da restauração da unidade de todos os homens com Deus e entre eles, o Crucificado que grita: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Mt 27,46).
Todos nós, homens, estávamos separados do Pai e divididos entre nós. Era necessário que o Filho, no qual todos estamos representados, provasse a separação do Pai, com o qual era uma coisa só (Jo 10,30).
Mas Jesus não se deixou paralisar pelo abismo daquela dor infinita. Com um grandioso esforço, dizendo: «Em tuas mãos, Pai, entrego o meu espírito» (Lc 23,46), voltou a abandonar-se ao Pai, e recompôs, assim, a unidade com Deus e entre nós.
É o mistério de Jesus abandonado-ressuscitado, que nos dá a possibilidade de, imitando-o, superar qualquer divisão e estabelecer um diálogo com todos.

Perspectivas políticas da fraternidade
Visto que os novos Movimentos, em geral, possuem o interesse pelo aspecto humano, no Movimento dos Focolares, a "espiritualidade da unidade e de comunhão" deu origem também a uma expressão política: o Movimento da Unidade, cujo objetivo específico é gerar a fraternidade na política.
Ele nasceu em Nápoles, em 1996, e congrega a experiência daqueles políticos italianos que, desde os anos 50, procuraram viver o ideal da unidade. Hoje, podemos constatar que tudo aquilo que foi praticado nos diversos níveis do compromisso político, da administração municipal à atividade parlamentar, pode nos oferecer indicações concretas, que poderiam ser desenvolvidas em dimensão continental.
Em primeiro lugar, compreendemos que existe uma verdadeira vocação para a política. É um chamado pessoal que emerge de circunstâncias específicas e exprime-se por meio da consciência. Quem possui uma fé religiosa percebe, com nitidez, a voz de Deus que lhe confia uma missão. Todavia, quem não possui uma fé religiosa, sente-se chamado a isso pela existência de uma necessidade social, de uma categoria fragilizada que solicita auxílio, de um direito humano violado, do desejo de realizar o bem para a própria cidade ou para a própria nação.
E a resposta à vocação política é, sobretudo, um ato de fraternidade. De fato, não se entra nesse campo só para resolver um problema, mas se age em prol do interesse da comunidade, desejando o seu bem como se fosse o próprio.
Esse modo de viver permite que o político escute profundamente os cidadãos, que conheça as suas necessidades e recursos. Isso o ajuda a compreender a história da própria cidade, a valorizar o patrimônio cultural e comunitário. Desse modo, ele consegue entender, pouco a pouco, a verdadeira vocação da cidade e a olhar para ela com segurança, a fim de traçar o seu caminho.
A função do amor político, de fato, é criar e proteger as condições que dêem a todos os outros amores a possibilidade de florescer: o amor dos jovens, que desejam se casar e precisam de uma casa e de um trabalho; o amor de quem quer estudar e precisa das escolas e dos livros; o amor de quem se dedica à própria empresa e precisa de estradas e ferrovias, de normas seguras... A política é o amor dos amores, que recolhe, na unidade de um projeto comum, a riqueza das pessoas e dos grupos, consentindo a cada um realizar livremente a própria vocação. Mas também suscita colaboração, fazendo as necessidades interagirem com os recursos, as demandas com as ofertas, infundindo a confiança uns nos outros. A política pode ser comparada ao caule de uma flor, que sustenta e alimenta o desabrochar das pétalas da comunidade.

Nós sabemos que, ainda hoje, existem cidadãos para quem a cidade é algo quase inexistente; para quem as instituições buscam, com dificuldade, encontrar respostas para os problemas deles. Existe também quem se sente excluído do tecido social e separado do corpo político por causa da falta de trabalho ou de moradia, ou da possibilidade de cuidar da saúde com meios adequados. São esses, e muitos outros, os problemas que cotidianamente os cidadãos apresentam a quem governa uma cidade. E a resposta que recebem é determinante para que também eles se sintam cidadãos com todos os seus direitos, sintam a exigência e tenham a possibilidade de participar da vida social e política.
Por isso, desse ponto de vista, a Câmara Municipal é a mais importante das instituições, porque está mais perto das pessoas e conhece diretamente todos os tipos de necessidades. É em contato com a Prefeitura, nas suas várias articulações, que o cidadão desenvolve a gratidão - ou o rancor - pelo conjunto das instituições, também por aquelas mais distantes, como as do Estado.

Passando agora a considerar a dimensão nacional da política, os relacionamentos entre as grandes tendências, que, nos nossos países, alternam-se no governo, constatamos que a vivência da nossa escolha política, como uma vocação de amor, leva-nos a compreender que também aqueles que fizeram uma escolha política diferente da nossa, podem ter sido movidos por uma análoga vocação de amor. Também eles participam - do modo deles- do mesmo projeto, ainda que se apresentem como adversários. A fraternidade permite o reconhecimento da função deles, o respeito por eles, a ajuda a serem fiéis, inclusive por meio de uma crítica construtiva, enquanto nós somos fiéis à nossa função.
A fraternidade deveria ser tão bem vivida a ponto de nos levar a amar o partido dos outros como o nosso, sabendo que ambos não nasceram por acaso, mas como uma resposta a uma exigência histórica, presente no interior da comunidade nacional. Só satisfazendo todos os interesses, só harmonizando-os num projeto comum, é que a política atingirá o próprio objetivo.
A fraternidade desperta os valores autênticos de cada um e reconstrói o conjunto do projeto político de uma nação.
Isso pode ser testemunhado, por exemplo, pelas iniciativas dos membros do Movimento da Unidade, voltadas para a criação de uma relação fraterna entre a maioria e a oposição do governo, em nível parlamentar ou em alguns municípios. Essas iniciativas foram traduzidas em leis estaduais ou em políticas locais, que uniram as cidades nas quais foram realizadas.
Uma prova disso são as numerosas experiências de acolhida aos imigrantes. Eles migram para países mais industrializados não apenas por motivos econômicos, mas também políticos. Uma cidade, uma nação, não perde, mas se enriquece ao abrir-se ao outro; eleva a sua estatura política ao oferecer uma pátria e uma cidadania a quem a perdeu. E o amor pela própria pátria facilita a compreensão do amor que os outros possuem pela pátria deles, para a qual também existe um projeto de amor.

Assim, aquele que, respondendo à própria vocação política, começa a viver a fraternidade, coloca-se numa dimensão universal, que o abre para a humanidade inteira. Ele pondera as conseqüências universais das próprias escolhas; questiona se aquilo que está sendo decidido, embora satisfaça o interesse da própria nação, não vai prejudicar as outras. Desse modo, cada ação política, não só a de um governo nacional, mas também a menor ação, realizada naquele pequeno município da mais longínqua localidade, adquire um significado universal, pois é plenamente humano e plenamente responsável o político que a realiza. O político da unidade ama a pátria alheia como a própria. Essa é a característica da dimensão política, da cidadania: a contínua interação com o outro, o reconhecimento das diferenças, mas, ao mesmo tempo, a convicção de pertencermos juntos, à cidade. E é essa também a característica da Europa.
De fato, quando se começou a falar de Europa, só havia cidades. Ao longo dos séculos, a percepção do que é a Europa foi sendo aprofundada e, ao mesmo tempo, as suas fronteiras foram se ampliando: da pequena Grécia, a consciência européia chegou a compreender a si mesma, como sendo do Atlântico aos Urais. E isso graças à penetração do cristianismo, que infundiu, nos povos da Europa "geográfica", os princípios religiosos que, traduzidos em princípios civis, sociais e políticos, construíram a Europa cultural. Tudo isso sem sufocar as identidades locais e as identidades nacionais, que foram se formando.
Em cada passagem da história, reencontramos a mesma situação: aquilo que, a certa altura, acreditava-se ser a Europa, era pequeno demais; ela se deparava com um elemento diferente, que a colocava em xeque-mate e a desafiava a compreendê-lo, a englobá-lo, modificando-o e modificando a si mesma.
Fazendo isso, a Europa foi concretizando cada vez mais a sua verdadeira fisionomia, rumo à plena maturação da semente cristã que não se exprime mais, certamente, na cristandade medieval, mas, com maior profundidade, se exprime na dinâmica da fraternidade universal que envolve pessoas e povos diferentes.
Essa fraternidade universal, que cria a unidade, salvando a distinção, é a vocação da Europa, que ainda está em caminho. As guerras, os regimes totalitários, as injustiças, deixaram feridas a serem cicatrizadas. Mas, para sermos realmente europeus, devemos olhar com misericórdia para o passado, reconhecendo, como nossa, a história da minha nação e a história das outras nações, reconhecendo que, o que somos hoje, é fruto de uma história comum, de um destino europeu que pede para ser assumido de modo integral e consciente por todos nós.
A unidade da Europa pede hoje aos políticos europeus que interpretem os sinais dos tempos e façam entre si um pacto de fraternidade, com o compromisso de se considerarem membros da pátria européia, tanto quanto o são da própria nação, procurando sempre o que une e encontrando, juntos, as soluções para os problemas que ainda impedem a unidade de toda a Europa.
Por um fim tão elevado, vale a pena empregar a própria existência. É o que desejo a todos os senhores.

Agradeço pela atenção dispensada.


Chiara Lubich

12-11-2001 


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